Entre quatro paredes, decorando o vazio insistente, estou a sonhar, construir baús cheios de surpresas, caixas coloridas. O bafo do escuro ronda meu rosto pálido, ainda vivo, rasteja sob meus vícios.
Condeno cada migalha de memória que ainda resta, ainda arde. Como posso lutar sem armas? O tempo ainda é de mau poesias, covardia, pressuposições, tédio, nojo. Certas coisas não morrem nunca, enquanto a cultivarmos. “Contraditório a si é mesmo o amor” “Porque antes e depois são gente como a gente”. Vendi minhas asas. Por enquanto, ando sozinha como aquelas estrelas solitárias, com um brilho efusivo de encharcar o espírito.
Tempo, espaço, esperança, não existem mais, esmagados por todas essas palavras. É irreversível. Uma flor nasceu para matar qualquer silêncio, assombrar o nada. Que vigore o caos se dele criar-se a minha porta de escape. O chão de estrelas do meu quarto permanece com seu semblante desgostoso, cansado de alucinações.
O que eu quero? O que posso eu querer? Quero tantas coisas. Segue aqui as notas aleatórias e medíocres de uma pequena sonhadora que agora se proíbe de sonhar: Quero essas músicas, todas elas, intercalando meus minutos, alterando minha intensidade, que com elas meus sorrisos afloresçam mais rápido que o normal e ainda assim, sejam maduros e saborosos. Quero os abraços escondidos, escancarados, envergonhados, porém, essencialmente sinceros. Braços que protegem, confortam. Braços amigos, alegres, ponderosos, bondosos. Muitos e muitos beijinhos estalados, coloridos, com sabores exóticos, charmosos, de todos aqueles com que sonho, aqueles que transbordam o coração pelo único motivo de sê-los. Que a sinceridade faça moradia por onde eu estiver, e que as casas não tenham cortinas, nem grades, as calçadas sejam transparentes, assim como todos aqueles que andarem por elas, pensarem nelas e as quiserem.
Que o amor corra por todas as veias, preencha lacunas e espaços angustiados. Com ele, venha a pureza e todas as coisas benditas. Com ele, os outros aprendam a respeitar alheios e a eles mesmos, que eu aprenda a perdoar e também pedir perdão, esquecer e aceitar os por vir. Desenhar mundos, sociedades, possibilidades, inventar cores, brinquedos, sorrisos à mesa, borboletas e fitas de cetim… Muitas poesias, não importa de quem ou pra quem, se elas me levarem àquelas pedras mornas da praia que nunca conheci. Palavras, palavras repletas de ênfase, entonação, contexto, respeito, reciprocidade, sinceridade e exclusividade aos únicos autores dos rabiscos, das fotos, desenhos, marcas… os únicos donos do súbito e inconsequente… que seja meu, somente assim. Deixe-me tatear seus dedos à penumbra, suavemente a escrever na alma, minhas cortesias. Esmaeço-me por entre essas pessoas, com sorriso de criança soltando gato no chão, com a saudade de quem voa…
Chego à beira-mar e perco-me outra vez, de novo, e de novo, no depois, para tornar-me essa gente a sorrir sem exagero.