Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres

20/10/2010

(…)

“Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem – pois nunca morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela – apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão. Seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito. A menos que ele escolha outra casa e que esta outra casa não tenha medo daquilo que é ao mesmo tempo selvagem e suave. Aviso que ele não tem nome: basta chamá-lo e acerta o seu nome. Ou não se acerta, mas, uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai. Se ele fareja e sente que um corpo- casa é livre, ele trota sem ruídos e vai. Aviso também que não se deve temer o seu relinchar: a gente se engana e pensa que é a gente mesma que está relinchando de prazer ou de cólera, a gente se assusta com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez“.

(…)

 

- Clarice Lispector.

M. M.

25/07/2010

Bem leve.

Releve.

Revele.

Dessa maneira.

21/04/2010

Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passar o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

Clarice Lispector

A Lista

23/01/2008

Faça uma lista de grandes amigos. Quem você mais via há dez anos atrás.  Quantos você ainda vê todo dia. Quantos você já não encontra mais. Faça uma lista dos sonhos que tinha. Quantos você já desistiu de sonhar! Quantos amores jurados pra sempre. Quantos você conseguiu preservar. Onde você ainda se reconhece, na foto passada ou no espelho de agora. Hoje é do jeito que achou que seria? Quantos amigos você jogou fora. Quantos mistérios que você sondava. Quantos você conseguiu entender. Quantos segredos que você guardava. Hoje são bobos ninguém quer saber. Quantas mentiras você condenava. Quantas você teve que cometer. Quantos defeitos sanados com o tempo, eram o melhor que havia em você. Quantas canções que você não cantava, hoje assobia pra sobreviver. Quantas pessoas que você amava, hoje acredita que amam você.

Oswaldo Montenegro

Poema 20

28/11/2007

Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Escrever por exemplo: “A noite está estrelada, E tiritam, azuis, os astros à distância.” O vento da noite circula no céu e canta. Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Eu a amei, e ela às vezes também a mim. Em noites como esta eu a tive entre meus braços. Tantas vezes a beijei sob o céu infinito. Ela me amou, e eu às vezes também a amava. Como não amar aqueles grandes olhos fixos. Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Pensar que não a tenho. Sentir que eu a perdi. Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela. E o verso cai na alma como orvalho no capim. Não importa que meu amor não pôde mantê-la. A noite está estrelada e ela não está comigo. Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Lá ao longe. Minh’alma não se conforma com tê-la perdido. Tentando trazê-la meu olhar a procura. Meu coração a procura e ela não está comigo. A mesma noite faz branquear as mesmas árvores. Já não somos os mesmos de antes, admito. Eu já não a amo, certo, mas quanto a amei. Minha voz buscava o vento para atingir seu ouvido. De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos. Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos. Já não a amo, certo, mas talvez a ame. É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento. Porque em noites como esta eu a tive entre meus braços, minh’alma não se conforma com tê-la perdido. Ainda que esta seja a última dor que ela me causa, e estes sejam os últimos versos que lhe dedico.


Pablo Neruda

Infinito Particular.

26/11/2007

“Por que todas as recordações são a mesma recordação,
Tudo que foi é a mesma morte,
Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?

Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional.
Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas?
Pode ser… A rapariga loira?
É a mesma afinal…
Tudo é o mesmo afinal …

Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isto é o mesmo também afinal.”

Fernando Pessoa – Álvaro de Campos – Acaso.

Levai-me por onde quiserdes.

28/11/2006

Boa noite, senhores!

Vão para o inferno sem mim.

25/06/2006

Eu estou revigorada. Eu me sinto revigorada. Agora entendo tudo aquilo que falava antes, até dá para sentir o gosto dessa náusea bendita. É nojento. Me disseram que isso não dói nada, disseram até que isso faz um bem danado, foi ele quem disse, recuso contrariar. Fico aqui, compartilhando o barulho de meus chinelos comigo mesma. Nada em mim está de acordo comigo. A dor é inútil, lastimável, triste. E sempre, sempre, sempre falta alguma coisa, nunca acharei que a vida é bastante, sobra sempre desejos úmidos por um palco desértico. E Nessa droga de vida é preciso jogar fora certas coisas. É preciso jogá-las fora, você não poder ter tudo aquilo que quer. Por que? Porque não pode! Simples assim. Não pode e pronto. Sem frustrações, ok?

Só hoje aprendi que não se poder fugir, não se pode fugir de nada disso, não dá. Não há substância que sufoque. Não há libertação. E nem adianta devorar-me aos poucos, nada disso adianta. Deixe o sossego entrar, o som de minha queda já se perdeu. Deixe o sossego entrar, imparcial, sob minha alma, sob meus pés, sob as estrelas do céu que brilham comigo. Não tenha pena, pouco a pouco os dias passam por mim, arrancam essa angústia, o malmequer inútil, e matam-me nobremente, sem saudar a morte.

Envolvera a saudade, o cansaço do passado morto. Não tenho mais nada a oferecer, não trago nada. Nada tenho a encontrar pelo caminho. Nada. Um nada que dói, não sei. Sou a loucura dispersa no vidro pintado, no absurdo. Não sei por onde ir, mal sei conduzir meus passos nesse abismo que há entre pensar e sentir. Com o passar dos anos acabei com as qualidades que, na verdade, já tinha. E todas as oportunidades que tive, todas as pessoas que pude ser, foram reduzindo-se a uma única, ao que sou, e é isso que sou: Eu e só.

Será que o fluído abstrato da náusea encharcou-me a alma? Tudo isso faz um cansaço. Sinta-me em silêncio e em segredo, pois agora a noite extática arranca o frescor de um afago esquecido. Apanha-me as diferenças perturbadoras que procuramos em vão. Rasgue suas vestes de incertezas, já tenho incertezas demais a acompanhar-me. Tudo isso que dói, tudo isso que repulsa no espírito, tudo isso que vejo, piso, é exatamente isso que enxergo e mais nada. É tudo o que sinto, é tudo o que sei e não quero saber mais, tudo o que não mais interessa. Afinal, toda manhã é a mesma, sempre no mesmo lugar. Tudo tende para um mesmo ponto nu, cheio de contradições. É tudo o mesmo, tudo fede igual, as paredes desta sala são iguais E nenhuma sombra ou luz é diferente, não havia nem janelas, muito menos vidros embaçados. É o que é, só isso, e um desejo de não pensar em nada. Deixe-me aqui quieta, nesse universo barato que sou.

E falo alto sem que haja alguém.

31/05/2006

Sossega, coração! Não desesperes! Talvez um dia, para além dos dias, encontres o que queres porque o queres. Então, livre de falsas nostalgias, atingirás a perfeição de seres. Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo! Pobre esperança a de existir somente! Como quem passa a mão pelo cabelo E em si mesmo se sente diferente, como faz mal ao sonho o concebê-lo! Sossega, coração, contudo! Dorme! O sossego não quer razão nem causa. Quer só a noite plácida e enorme, a grande, universal, solente pausa antes que tudo em tudo se transforme.

Como nuvens pelo céu passam os sonhos por mim. Nenhum dos sonhos é meu, embora eu os sonhe assim. São coisas no alto que são enquanto a vista as conhece, Depois são sombras que vão Pelo campo que arrefece. Símbolos? Sonhos? Quem torna meu coração ao que foi? Que dor de mim me transtorna? Que coisa inútil me dói?

Fernando Pessoa

Quando a lua bafeja…

25/05/2006

Entre quatro paredes, decorando o vazio insistente, estou a sonhar, construir baús cheios de surpresas, caixas coloridas. O bafo do escuro ronda meu rosto pálido, ainda vivo, rasteja sob meus vícios.

Condeno cada migalha de memória que ainda resta, ainda arde. Como posso lutar sem armas? O tempo ainda é de mau poesias, covardia, pressuposições, tédio, nojo. Certas coisas não morrem nunca, enquanto a cultivarmos. “Contraditório a si é mesmo o amor”  “Porque antes e depois são gente como a gente”. Vendi minhas asas. Por enquanto, ando sozinha como aquelas estrelas solitárias, com um brilho efusivo de encharcar o espírito.

Tempo, espaço, esperança, não existem mais, esmagados por todas essas palavras. É irreversível. Uma flor nasceu para matar qualquer silêncio, assombrar o nada. Que vigore o caos se dele criar-se a minha porta de escape. O chão de estrelas do meu quarto permanece com seu semblante desgostoso, cansado de alucinações.

O que eu quero? O que posso eu querer? Quero tantas coisas. Segue aqui as notas aleatórias e medíocres de uma pequena sonhadora que agora se proíbe de sonhar: Quero essas músicas, todas elas, intercalando meus minutos, alterando minha intensidade, que com elas meus sorrisos afloresçam mais rápido que o normal e ainda assim, sejam maduros e saborosos. Quero os abraços escondidos, escancarados, envergonhados, porém, essencialmente sinceros. Braços que protegem, confortam. Braços amigos, alegres, ponderosos, bondosos. Muitos e muitos beijinhos estalados, coloridos, com sabores exóticos, charmosos, de todos aqueles com que sonho, aqueles que transbordam o coração pelo único motivo de sê-los. Que a sinceridade faça moradia por onde eu estiver, e que as casas não tenham cortinas, nem grades, as calçadas sejam transparentes, assim como todos aqueles que andarem por elas, pensarem nelas e as quiserem.

Que o amor corra por todas as veias, preencha lacunas e espaços angustiados. Com ele, venha a pureza e todas as coisas benditas. Com ele, os outros aprendam a respeitar alheios e a eles mesmos, que eu aprenda a perdoar e também pedir perdão, esquecer e aceitar os por vir. Desenhar mundos, sociedades, possibilidades, inventar cores, brinquedos, sorrisos à mesa, borboletas e fitas de cetim… Muitas poesias, não importa de quem ou pra quem, se elas me levarem àquelas pedras mornas da praia que nunca conheci. Palavras, palavras repletas de ênfase, entonação, contexto, respeito, reciprocidade, sinceridade e exclusividade aos únicos autores dos rabiscos, das fotos, desenhos, marcas… os únicos donos do súbito e inconsequente… que seja meu, somente assim. Deixe-me tatear seus dedos à penumbra, suavemente a escrever na alma, minhas cortesias. Esmaeço-me por entre essas pessoas, com sorriso de criança soltando gato no chão, com a saudade de quem voa…

Chego à beira-mar e perco-me outra vez, de novo, e de novo, no depois, para tornar-me essa gente a sorrir sem exagero.

O natural impulso dos instintos.

24/05/2006

Porque as raízes podem estar debaixo da terra, mas as flores florescem ao ar livre e à vista. Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir. Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma, nem procurei achar nada, nem achei que houvesse mais explicação que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva – ao sol quando havia sol e à chuva quando estava chovendo (E nunca a outra cousa), sentir calor e frio e vento, E não ir mais longe. Uma vez amei, julguei que me amariam, mas não fui amado. Não fui amado pela unica grande razão – Porque não tinha que ser. Consolei-me voltando ao sol e a chuva, E sentando-me outra vez a porta de casa. Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados como para os que o não são. Sentir é estar distraído.

Se Eu Morrer Novo – Fernando Pessoa

O resto é uma espécie de sono que temos.

24/05/2006

Os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Pagãos inocentes da decadência.

24/05/2006

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, mais longe que os deuses. Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio. Mais vale saber passar silenciosamente E sem desassosegos grandes. Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz, Nem invejas que dão movimento demais aos olhos, Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria, E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos, se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias, Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro, ouvindo correr o rio e vendo-o. Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as no colo, e que o seu perfume suavize o momento – Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada, Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois, sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova, porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos, nem fomos mais do que crianças. E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio, eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti. Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim – à beira-rio, Pagã triste e com flores no regaço.


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